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E depois das CAR-T cells? Que opções estão disponíveis para doentes refratários a esta possibilidade terapêutica?

E depois das CAR-T cells? Que opções estão disponíveis para doentes refratários a esta possibilidade terapêutica?

Em jeito de balanço, a Dr.ª Maria Eduarda Couto, interna do 5.º ano de Hematologia Clínica no IPO do Porto, analisou as sessões, integradas no programa científico da ASH 2020, que destacaram as novas possibilidades de tratamento com a utilização de anticorpos bi-específicos em doentes refratários à terapêutica com CAR-T cells.

“Os anticorpos bi-específicos estão numa fase de expansão, sendo alguns deles utilizáveis em doentes refratários a CAR-T cells. Estas ferramentas serão certamente necessárias num futuro a médio prazo, dado que temos cada vez mais doentes tratados com CAR-T cells no mundo, exigindo-se alternativas para o caso de falência/progressão da doença ou recidiva. Fora do contexto das CAR-T cells, estes fármacos também poderão ser úteis como ‘ponte’ para o alotransplante em doentes fit”, explicou a Dr.ª Maria Eduarda Couto, interna do 5.º ano de Hematologia Clínica no IPO do Porto.

A propósito dos anticorpos bi-específicos, a Dr.ª Maria Eduarda Couto mencionou o epcoritamab (anti-CD20 e anti-CD3), administrado por via subcutânea e para uso em ambulatório. “Dos 68 doentes foram tratados com epcoritamab, 11 já tinham realizado previamente tratamento com CAR-T cells. A overall response rate (ORR) foi de 91% no total de doentes com LNH DGCB (completa em 55% dos casos), mas não foram individualizados os resultados para os doentes CAR-T cells. Não ocorreu síndrome de libertação de citoquinas (CRS) superior a grau 2. Este anticorpo está a ser estudado em combinação com agentes clássicos para a 1.ª linha de tratamento do LNH DGCB (com protocolo R-CHOP) e para o LNH CF (com R-bendamustina).”

O odronextamab (anticorpo bi-específico anti-CD20 e anti-CD3) é administrado por via endovenosa (para uso em ambulatório) e “é utilizado para LNH-B, inclusive após tratamento com CAR-T cells”. “Foram tratados 136 doentes, 60% com LNH DGCB, com uma mediana de apenas três linhas de tratamento prévias, 90% dos doentes em estádios avançados. Ocorreu CRS em 63%, porém, CRS de grau 3 ocorreu em 5% dos casos. ICANS ocorreu em 1,5%. A ORR foi de 33% para o LNH DGCB após CAR-T cells (apenas 24 doentes), havendo 21% respostas completas (em doentes multitratados).”

“O glofitamab (anticorpo bi-especifico anti-CD20 e anti-CD3) é uma outra alternativa para linfomas não-Hodking B (LNH-B). Foi utilizado em três doentes previamente tratados com CAR-T cells. A dose crescente comparada com dose fixa parece ter melhores resultados”, notou a Dr.ª Maria Eduarda Couto, adiantando, ainda, que mosunetuzumab (anticorpo bi-especifico anti-CD20 e anti-CD3, subcutâneo) “foi testado no LNH DGCB recém-diagnosticado, sendo um agente promissor como anticorpo anti-CD20 para tratamento de combinação com CHOP, já que alcança uma ORR de 82.4% no LNH DGCB (completa em 80%). Está a decorrer um estudo que compara M-CHP-pola e R-CHP-pola. No linfoma indolente o mosunetuzumab alcança 86% de respostas, 43% das quais completas”, apontou a médica, salientando que “em doentes com LNH-B refratário não elegíveis para alotransplante surge uma novidade: o MB-CART 2019.1, um CAR bi-específico CD19 e CD20 que exige apenas 14 dias de preparação”. “O CRS ocorreu em 60% dos doentes. Foi obtida resposta completa em 50% dos 12 casos estudados.”

Outras novidades apresentadas na ASH

A Dr.ª Maria Eduarda Couto mencionou “o estudo A-TREAT”, o qual “avaliou a utilidade do ácido tranexâmico 1 g. 3x/dia em doentes onco-hematológicos sob tratamento e com plaquetas <30.000”. “O ácido tranexâmico não reduziu a frequência de transfusão de plaquetas, não reduziu as taxas de hemorragias observáveis e que exigem intervenção minor ou até mais graves. Tem ainda o risco de trombose de CVC aumentado”, clarificou.

A propósito de outras novidades, apresentadas na ASH 2020, a Dr.ª Eduardo Couto apontou os estudos com plasma convalescente, “utilizado em doentes COVID-19 positivos”, uma opção cuja “ação parece durar semanas ou meses”. “Já existem 41 ensaios clínicos dispersos em todo o mundo, direcionados para doentes internados com doença moderada ou severa. Seria ideal termos mais estudos dedicados a doentes de ambulatório e com doença menos severa ou como profilaxia. Há uma limitação importante no que se refere aos dadores, já que menos de 2/3 dos potenciais dadores são elegíveis pelo titulo de anticorpos exigido (atualmente IgG>160, mas este limite não está ainda muito bem definido).”

Por último, a Dr.ª Maria Eduarda Couto destaca “uma sessão dedicada às alterações hematológicas em indivíduos transgénero (em resultado da suplementação hormonal com estrogénios/testosterona), sobre os riscos inerentes, como por exemplo o favorecimento de fenómenos tromboembólicos”. “Apesar de ser uma realidade distante da portuguesa, creio que será importante a médio prazo conhecermos estas particularidades, antes que sejamos confrontados com as mesmas.”

sexta-feira, 15 janeiro 2021 13:03
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